Até que eles aguentaram bem, mais do que eu poderia imaginar. Eu não lembro exatamente como cheguei ao orfanato. Só lembro que um dia cheguei e nunca mais sai.
Vou situar você do local, mesmo sabendo que seria dificil esquecer a grande casa azul. Portões circundam todo o terreno, uma porta grande de entrada. Estamos em 2020, então no começo desse ano, antes da pandemia você foi visitar. Bateu um certo choque ao ver cadeados nas portas, pois não se lembrava de ter isso quando ficou lá.
O coração deu uma leve apertada e a garganta apertou.
Passando pelo corredor, temos duas escadas, que levam pelo que me lembro aos quartos? Um cubículo enorme, com várias camas uma ao lado da outra, acima delas uma grande janela, que você passaria dias olhando o porto e os containers. Toda noite você ajoelhava e se perguntava do motivo de estar lá, quando iria embora.
Esse foi o seu segundo inferno, mesmo que por pouco tempo.
Havia uma creche, que você "estudava" lá. No caso brincava de massinha mesmo. Você se perguntava também por quê algumas crianças que você brincavam iam embora e só voltavam no outro dia e você tinha que ficar lá.
Era uma salinha pequena, com várias estantes e mesinhas redondas.
Tinha a cozinha, que era um largo ambiente com mesa e banco comprido, que você sentava e tinha que comer o que serviam. Muitas vezes tinha salada, com cebola que vinha crua. Você chorava pra comer, mas era obrigada. Obrigada pelo trauma.
Tinha a sala para "brincar". Você tinha uma boneca em especial. Ainda se lembra da colher "especial" que aparecia e sumia a comida, quando dava pra Miranda (era esse o nome da bonequinha)? Não era sempre que você conseguia brincar, mas você nem ligava não é mesmo? Sempre fomos uma criança tranquila.
Tomar banho era a pior parte. Ficava todo mundo junto, sem roupa e esperando a "tia" te chamar.
A melhor hora do dia e da semana era quando podia ficar no jardim. Ele é grande, com uma cupula que tinha uma nossa senhora, rodeada infelizmente por espinhos, e uma capela, que não sei como você conseguiu entrar. Virou seu refúgio. Você se sentia em paz, protegida. Você cantarolava sozinha e ficava pensando.
Tinha também o teatro, várias cadeiras verdes? Não lembro. E um mini palco. Sexta feira, dia de visitas. Esses dias eu não lembro absolutamente nada, apenas do dia que meus novos pais chegaram. Minha mãe sempre fala que ela foi procurando um bebê (normal), mas quando me viu se apaixonou a primeira vista. Eu olhei pra ela, dei um sorriso, apoiei as duas mãos por baixo do queixo e inclinei a cabeça. É ******* você sabe como conquistar as pessoas com esse seu jeitinho meigo (mas nem sempre).
Você sempre foi uma criança quieta, então até hoje não consigo entender o motivo das "tias" terem sido tão rudes com você. Ainda lembro dos tapas e de ninguém acreditando.
Finalizamos então textos sobre os 5 primeiros anos da sua vida.
******* não sei como está sendo ler tudo isso, afinal não sei se conseguiu superar todos esses traumas. Levei um bom tempo pra voltar a escrever desde o último texto.
Então vamos a algumas atualizações: ainda estamos na pandemia. Você conheceu uma nova pessoa e está muito feliz. Ele te dá paz, você se sente amada e protegida de tudo (me diz que você continua com ele). Você tem ótimas amigas, que se preocupam e querem te guardar num potinho (é como elas dizem).
Hei de tentar escrever com mais frequência, mas ainda é meio dificil lidar com esse turbilhão de sentimentos.