Filha

 Oi Filha,

Escrevo isso no intuito de me sentir um pouco melhor e quem sabe, se existir, você sinta algum conforto.

Você tem sido desejada e planejada há muito tempo, seu nome já havia sido escolhido por mim com muito carinho, seu rostinho sempre muito sonhado e imaginado, sempre com aquela dúvida: será que você vai ter os meus olhos? Mas infelizmente o tempo não colaborou e você veio no errado. Ainda sonho com você todas as noites. Imaginando como seria se eu não tivesse me deixado levar pelo medo. Medo da minha história se repetir com você. Eu nunca iria me perdoar de causar os mesmo traumas e medos em alguém que eu já amava tanto antes mesmo de conhecer.

Será que você seria uma canceriana nata e faria mais drama que eu? Puxaria o genio do seu pai ou o meu? Iria para o lado das exatas ou humanas? Ou então biólogicas? Seria ingênua e cairia nas piadas do seu pai assim como eu? Ou se juntaria a ele para fazer comigo?

Eram tantos planos que eu tinha para você. Quero só pedir desculpa por não ter sido forte o suficiente pra lutar por você. Por ter tido medo.

Você sempre vai estar no meu coração.

Eu te amo,

pra sempre


O abandono

Até que eles aguentaram bem, mais do que eu poderia imaginar. Eu não lembro exatamente como cheguei ao orfanato. Só lembro que um dia cheguei e nunca mais sai.

Vou situar você do local, mesmo sabendo que seria dificil esquecer a grande casa azul. Portões circundam todo o terreno, uma porta grande de entrada. Estamos em 2020, então no começo desse ano, antes da pandemia você foi visitar. Bateu um certo choque ao ver cadeados nas portas, pois não se lembrava de ter isso quando ficou lá.

O coração deu uma leve apertada e a garganta apertou.

Passando pelo corredor, temos duas escadas, que levam pelo que me lembro aos quartos? Um cubículo enorme, com várias camas uma ao lado da outra, acima delas uma grande janela, que você passaria dias olhando o porto e os containers. Toda noite você ajoelhava e se perguntava do motivo de estar lá, quando iria embora.

Esse foi o seu segundo inferno, mesmo que por pouco tempo.

Havia uma creche, que você "estudava" lá. No caso brincava de massinha mesmo. Você se perguntava também por quê algumas crianças que você brincavam iam embora e só voltavam no outro dia e você tinha que ficar lá.

Era uma salinha pequena, com várias estantes e mesinhas redondas.

Tinha a cozinha, que era um largo ambiente com mesa e banco comprido, que você sentava e tinha que comer o que serviam. Muitas vezes tinha salada, com cebola que vinha crua. Você chorava pra comer, mas era obrigada. Obrigada pelo trauma.

Tinha a sala para "brincar". Você tinha uma boneca em especial. Ainda se lembra da colher "especial" que aparecia e sumia a comida, quando dava pra Miranda (era esse o nome da bonequinha)? Não era sempre que você conseguia brincar, mas você nem ligava não é mesmo? Sempre fomos uma criança tranquila.

Tomar banho era a pior parte. Ficava todo mundo junto, sem roupa e esperando a "tia" te chamar.

A melhor hora do dia e da semana era quando podia ficar no jardim. Ele é grande, com uma cupula que tinha uma nossa senhora, rodeada infelizmente por espinhos, e uma capela, que não sei como você conseguiu entrar. Virou seu refúgio. Você se sentia em paz, protegida. Você cantarolava sozinha e ficava pensando.

Tinha também o teatro, várias cadeiras verdes? Não lembro. E um mini palco. Sexta feira, dia de visitas. Esses dias eu não lembro absolutamente nada, apenas do dia que meus novos pais chegaram. Minha mãe sempre fala que ela foi procurando um bebê (normal), mas quando me viu se apaixonou a primeira vista. Eu olhei pra ela, dei um sorriso, apoiei as duas mãos por baixo do queixo e inclinei a cabeça. É ******* você sabe como conquistar as pessoas com esse seu jeitinho meigo (mas nem sempre).

Você sempre foi uma criança quieta, então até hoje não consigo entender o motivo das "tias" terem sido tão rudes com você. Ainda lembro dos tapas e de ninguém acreditando.

Finalizamos então textos sobre os 5 primeiros anos da sua vida.

******* não sei como está sendo ler tudo isso, afinal não sei se conseguiu superar todos esses traumas. Levei um bom tempo pra voltar a escrever desde o último texto.

Então vamos a algumas atualizações: ainda estamos na pandemia. Você conheceu uma nova pessoa e está muito feliz. Ele te dá paz, você se sente amada e protegida de tudo (me diz que você continua com ele). Você tem ótimas amigas, que se preocupam e querem te guardar num potinho (é como elas dizem).

Hei de tentar escrever com mais frequência, mas ainda é meio dificil lidar com esse turbilhão de sentimentos.

A senhora que mora ao lado

Você merecia mais do que apenas um simples trecho em um texto, preciso fazer um apenas para você. Assim eu terei na memória para sempre (ou até o dia que a internet deixar de existir).

É engraçado como mal consigo me lembrar do seu rosto e apenas vagamente da sua casa. ******* você precisa parar de memorizar as coisas ruins da sua vida.

Passando pelo portãozinho que dividia as duas casas, chegamos na sua sala (eu acho, é tudo embaçado). É uma sala pequena, mas acolhedora e aconchegante. Eu me sentia segura. Um armário marrom claro, cheio de quinquilharias de vó, santos e panos. A televisão num movél bege, com fotos embaçadas. O tapete que passei tanto tempo sentada e o sofá com capa.

Você sabia que eles mal me alimentavam, então sempre que ouvia o barulho do portão, você preparava o meu prato. Então me sentava no sofá e assístiamos a tv enquanto comia.

De manhã assístiamos à missa, Padre Marcelo eu acho?

Sei que quando fui para o orfanato, questionaram o motivo de você não me adotar. E você respondeu que eu merecia uma vida melhor.

Você foi o primeiro contato que tive com a bondade. Isso me marcou fortemente até hoje. Obrigada.

Caso você já tenha partido e possa me ver daí de cima... 

Eu não tenho palavras de agradecimento suficientes, por isso tento ser o mais próxima a você.
Obrigada por ser o meu anjo. Obrigada por me salvar.

Primeiro mês

Recomponha-se *******.

Passou-se um mês desde a minha primeira decepção. "Eu volto"

Vou descrever o ambiente, pra ficar guardado. Não sei a veracidade dos fatos, eu tinha 1/2 anos.

Era uma casa terrea. Ficava bem na esquina do quarteirão. Um cercadinho precário. Um jardim mal cuidado. Não consigo lembrar da frente da casa, apenas da lateral. Havia um portãozinho que separava da vizinha. Uma senhora muito agradável. Você provavelmente já se foi, mas você salvou a minha vida. Obrigada. Mas isso fica para outro texto.

A casa mal era dividida em cômodos. Mal havia paredes ou privacidade. Você entra e já está na cozinha. Do lado direito (ou será esquerdo?, eu nunca sei qual é qual, o lado da mão de casado. Pronto) ficava uma mesinha de metal, branca, com uma toalha pequena no centro. Do lado oposto (esquerda? tanto faz) ficava a pia, uns amários e um tanque de lavar roupa. Ou será que o tanque era a pia também? Eu juro que não lembro.

Passando a soleira da porta não existente entramos numa sala/quarto. Do lado da mão de casado, ficava primeiro um sofá, um tanto quanto pútrido, era num tom verde, marrom? Algo do tipo. Tinha um armário marrom, grande e austero. Uma mesinha de centro no qual não me lembro.

Dessa sala improvisada, se olhar pra frente veria uma cama, que eu passaria os 2 anos seguintes dividindo com um dos filhos. Olhando para a esquerda (mao de namoro?) veria o quarto do casal. No caso a cama apenas. Redonda. Ficava em cima de uns degraus. 3 pra ser precisa.

O banheiro ficava no quintal. Ele era aberto. Como eu disse, nenhuma privacidade.

Deu pra se situar *******? Não esquece. Esse foi o seu primeiro inferno. Foi onde você desejou morrer pela primeira vez aos 4 anos.

Lugar descrito, vamos aos fatos.

Eu falei que dividia a cama não é? Foi um eufemismo.

Cada um ficava no extremo oposto da cama. Uma coberta apenas. Mas era aquela coberta de criança sabe? Que não cobre a cama toda. Você já pode imaginar. Eu mal me cobria. Fiquei doente várias vezes.

Eu era uma criança. Então eu queria brincar. Mas não podia e eu não entendia. Meu castigo era sempre o mesmo. ******* se isso ainda te machucar, não continue lendo.

Eles afastavam a cama da parede, você tinha que ficar entre os dois. Eles empurram de volta. Você lembra da dor como eu? Você lembra deles puxando o seu cabelo? Você ainda consegue ouvir as risadas quando percebiam que você estava enfim chorando? Eu consigo. Eu vivo esse pesadelo toda semana. Ainda acordo no meio da noite, com o coração batendo forte. Eu afastei minha cama da parede por isso. Você, no futuro, conseguiu lidar com isso? Eu estou com 21 anos. Ainda não consegui.

Como eu disse, eu era uma criança. Não me ensinaram a fazer minhas necessidades. Você lembra do que aconteceu né? Ainda não consigo falar sobre isso. Mas esse é o meu maior trauma. O motivo da sua frescura com comida. Você ainda é assim? 21 anos. Continuo sendo.

Você tomava banho sozinha. No quintal. Sem privacidade. Você sentia olhos em você, mas nunca conseguiu entender. Nem quando você dormia e sentia isso. Hoje você entende que realmente te observavam. Você entende que a "ajuda" pra você tomar banho, não era ajuda.

******* são muitos sentimentos vindo a tona não é? Vou encerrar esse texto pois está ficando grande, eu sei. E eu sei que é tudo um misto de sentimentos. Estou aprendendo a lidar, pra que no futuro, quando você estiver lendo, você já esteja bem.

******* nós vamos conseguir escrever sobre tudo. Aguenta firma. Eu to fazendo o possível.

Since 1998

A melhor forma de entender como tudo aconteceu normalmente é pelo começo.

**/11/1998.

Eu nasci.

Grande coisa não é mesmo?

Mas pra mim sim. Nunca conheci minha mãe. Ela morreu eu mal tinha feito 1 ano. (é o que dizem).
Meu "pai"? Bom, ele não era uma pessoa exemplar. Ainda o culpo pela minha mãe. Foi preso inúmeras vezes. Minha única lembrança é dele virando as costas e me deixando na casa da "dinda". Nunca mais o vi.

Dizem que minha mãe tinha o cabelo preto, longo. Morena. Ele era claro, cabelo claro e olho verde. Nesse momento eu comecei a odiar o meu olho. Eu ter puxado a minha característica mais bonita desse monstro. 

Eu espero que o meu sorriso tenha sido dela. Você me olha dai de cima mamãe, pode me responder?

Sou tola, afinal não acredito nisso. Mas tudo bem, estou falando comigo mesma.

Tudo começou quando ele virou as costas. Na verdade tudo começou quando ele provocou a morte dela.

Mas piorou quando ele foi embora. "Eu volto pra te buscar". Foi a primeira mentira que eu ouvi na minha vida. Foi ai que eu deixei de acreditar nas pessoas.

Foi nesse dia que a minha fé morreu também, só levei 14 anos pra perceber.

A vida na casa da "dinda" começou boa. Afinal eles não esperavam cuidar de uma pirralha, da filha dos outros. Eu nem sei se tinha parentesco. Eu não sei nem o nome deles. Eram 4 pessoas.

Tudo começou quando a ficha caiu que ele não ia voltar. 

Mas isso fica pra outra hora, muitos sentimentos para uma pessoa de tpm lidar

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